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Caso United Airlines: retrato da decadência americana?

Provavelmente você já tenha visto o vídeo, ou pelo menos ouvido falar do incidente ocorrido em um voo da United Airlines com destino à cidade americana de Louisville, onde um passageiro asiático foi brutalmente retirado do avião após um overbooking.



O caso tem provocado grande debate à cerca de questões legais relacionadas a atitude da empresa. Já outros vão mais além, e veem uma oportunidade de se levantar um debate mais profundo e começam a se questionar se este caso não evidenciaria um provável declínio da America em termos humanitários, deixando de lado o bem-estar do consumidor em prol do lucro.

O que alguns americanos estão pensando?

O fim do atendimento ao cliente - Quem nunca ouviu a máxima de que o cliente tem sempre a razão? Um mito que se iniciou nas indústrias americanas de serviços e que se tornou lema de orgulho para muitas empresas ao redor do mundo. A United Airlines ofereceu U$800 para o Dr. Dao se retirar do avião, após a recusa, os seguranças do aeroporto protagonizaram a cena lamentável que rodou o mundo. Queixas de consumidores têm sido uma crescente por lá, uma pesquisa nacional recente mostrou que 54% dos lares americanos têm alguma crítica a fazer referente aos produtos e serviços oferecidos nos últimos 12 meses, um aumento de quatro por cento em relação a 2013.

Não somos mais uma autoridade moral - A atitude registrada pelos celulares dos passageiros retratam uma cena que vai totalmente de encontro com a imagem vendida pelos EUA ao mundo: a de um país humanista, civilizado e civilizador. Seria um exagero dizer isso de um acontecimento isolado, o problema é que na America de hoje casos como esses são bastante comuns. O progresso econômico parece - em algumas indústrias - irem de encontro com o respeito ao consumidor.

Poder corporativo maior que direitos individuais - a "compra" de políticos pelas grandes companhias não é uma exclusividade brasileira. Além dos americanos lamentarem esta triste realidade, muitos também se indignam ao ver que a lei parece dar respaldo para atitudes como da United Airlines. Como pode ser permitido a uma empresa vender mais passagens do que os acentos podem acomodar? E se a aposta de que algumas dessas pessoas não aparecerão falhar? E se todos que compraram quererem utilizar do serviço adquirido? A solução é a simples e brutal retirada de alguns passageiros? Como é permitido a uma empresa vender algo que não tem?

Força policial como legitimadora da justiça - Algo que vem crescendo nos EUA e também em demais países é a ideia de que a força policial é a real legitimadora da justiça. Muita das vezes agentes mal treinados são chamados para agirem em situações em que um simples diálogo poderia resolver um conflito, mas por não estarem preparados agem de forma irracional e instintiva e produzem ações grotescas de truculência e violência gratuita.

As discussões e as lições que se podem retirar do ocorrido parecem ser os únicos - mas muito importantes - pontos positivos que podemos citar. Todos nós nos assustamos com o que vimos, em especial os americanos, que não perece que aceitarão a perda do pepel de farol simbólico para mundo de uma forma tão passível. É torcer para que reais mudança ocorram e cenas como estas se tornem cada vez mais raras.

O Medo Manda - Eduardo Galeano


"Habitamos um mundo governado pelo medo, o medo manda, o poder come medo, o que seria do poder sem o medo? Sem o medo que o próprio poder gera para perpetuar-se."

O medo da fome no café da manhã.

O medo do silêncio que atordoa as ruas.

O medo ameaça.

Se você ama terá Aids.

Se fuma terá câncer.

Se respira terá contaminação.

Se bebe terá acidentes.

Se come terá colesterol.

Se fala terá desemprego.

Se caminha terá violência.

Se pensa terá angústia.

Se duvida terá loucura.

Se sente terá solidão.

O demônio é estrangeiro

refugiado imigrante

O "culpómetro" indica que os imigrantes vêm para roubar-nos o emprego. E o "perigosímetro" assinala com luz vermelha!

Se o intruso, vindo de fora, é jovem e pobre e não é branco, está condenado a primeira vista à pobreza ou à uma inclinação ao caos. Mas se não é jovem nem pobre, nem escuro, de qualquer forma merece ser mal recebido porque há vindo para trabalhar o dobro em troca da metade.

O pânico à perda do emprego é um dos meios mais poderosos nestes tempos de mundo governado pelo medo.

A verdade é que o imigrante está sempre situado em uma posição ingrata e injusta: Em primeiro plano quando se procura culpados pelo desemprego, pela insegurança e por muitas outras terríveis desgraças.

Antes a Europa se derramava sobre o mundo, sobre o mundo inteiro: Soldados, presos, camponeses mortos de fome... Eram os protagonistas das aventuras coloniais e passaram a história como mensageiros de Deus. Era a civilização buscando a salvação dos bárbaros.

Agora a viajem é oposta. Assistimos a invasão dos invadidos. Os que chegam, ou pelo menos tentam, o fazem desde o sul ao norte. São protagonistas em uma triste história que tem seus rumos mudados, de forma quase que sádica. São os mensageiros do diabo. A barbárie lançada ao assalto da civilização.

O Medo Global - Eduardo Galeano

medo

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

E os que não trabalham têm medo de não encontrar nunca trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de serem atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.

Os civis tem medo dos militares. Os militares têm medo da falta de armas.

As armas têm medo da falta de guerra.

É o tempo do medo.

Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

Medo dos ladrões e medo da polícia.

Medo da porta sem fechadura.

Do tempo sem relógios.

Do menino sem televisão.

Medo da noite sem pílulas para dormir e a manhã sem pílulas para acordar.

Medo da solidão e medo da multidão.

Medo do que foi.

Medo do que virá.

Medo de morrer.

Medo de viver.