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O Medo Manda - Eduardo Galeano


"Habitamos um mundo governado pelo medo, o medo manda, o poder come medo, o que seria do poder sem o medo? Sem o medo que o próprio poder gera para perpetuar-se."

O medo da fome no café da manhã.

O medo do silêncio que atordoa as ruas.

O medo ameaça.

Se você ama terá Aids.

Se fuma terá câncer.

Se respira terá contaminação.

Se bebe terá acidentes.

Se come terá colesterol.

Se fala terá desemprego.

Se caminha terá violência.

Se pensa terá angústia.

Se duvida terá loucura.

Se sente terá solidão.

O demônio é estrangeiro

refugiado imigrante

O "culpómetro" indica que os imigrantes vêm para roubar-nos o emprego. E o "perigosímetro" assinala com luz vermelha!

Se o intruso, vindo de fora, é jovem e pobre e não é branco, está condenado a primeira vista à pobreza ou à uma inclinação ao caos. Mas se não é jovem nem pobre, nem escuro, de qualquer forma merece ser mal recebido porque há vindo para trabalhar o dobro em troca da metade.

O pânico à perda do emprego é um dos meios mais poderosos nestes tempos de mundo governado pelo medo.

A verdade é que o imigrante está sempre situado em uma posição ingrata e injusta: Em primeiro plano quando se procura culpados pelo desemprego, pela insegurança e por muitas outras terríveis desgraças.

Antes a Europa se derramava sobre o mundo, sobre o mundo inteiro: Soldados, presos, camponeses mortos de fome... Eram os protagonistas das aventuras coloniais e passaram a história como mensageiros de Deus. Era a civilização buscando a salvação dos bárbaros.

Agora a viajem é oposta. Assistimos a invasão dos invadidos. Os que chegam, ou pelo menos tentam, o fazem desde o sul ao norte. São protagonistas em uma triste história que tem seus rumos mudados, de forma quase que sádica. São os mensageiros do diabo. A barbárie lançada ao assalto da civilização.

O Medo Global - Eduardo Galeano

medo

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

E os que não trabalham têm medo de não encontrar nunca trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de serem atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.

Os civis tem medo dos militares. Os militares têm medo da falta de armas.

As armas têm medo da falta de guerra.

É o tempo do medo.

Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

Medo dos ladrões e medo da polícia.

Medo da porta sem fechadura.

Do tempo sem relógios.

Do menino sem televisão.

Medo da noite sem pílulas para dormir e a manhã sem pílulas para acordar.

Medo da solidão e medo da multidão.

Medo do que foi.

Medo do que virá.

Medo de morrer.

Medo de viver.